quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A vida dos escravos numa fazenda de Café



As fazendas vassourenses, possuiam em média de 80 a 100 escravos. A vida deles era regida pelas necessidades da cultura cafeeira, a manutenção da sede e das senzalas, a produção de víveres e o beneficiamento do café. O dia de trabalho do escravo era longo. Começava antes do nascer do sol prolongando-se, freqüentemente, muitas horas depois do rápido crepúsculo do planalto do Paraíba

As cozinheiras se levantavam antes do sol nascer para acender o fogo embaixo dos caldeirões de ferro; em breve o cheiro do café, da rapadura e do angu de fubá flutuavam no ar. O sol ainda não havia nascido quando o feitor ou um de seus capatazes negros se encaminhava para um canto do terreiro para tanger o sino de boca larga. As badaladas do sino de ferro fundido; às vezes, o toque de uma buzina ou o rufar de um tambor percutia pelo terreiro, penetrando nos pequenos cubículos onde dormiam os casais de escravos e nos dormitórios separados, onde se amontoavam os escravos solteiros. Saindo de sua modorra de cinco ou oito horas, arrastavam-se de suas tarimbas de tábuas cobertas de esteiras; os trabalhadores da lavoura pegavam as enxadas e as foices penduradas no beiral. No grande tanque, ao lado da senzala, molhavam o rosto e a cabeça, friccionavam os braços, as pernas e os tornozelos. Escravos atrasados apareciam à porta da senzala cantarolando o jongo que satirizava o feitor tocando o sino :

O diabo do bembo me acordou
Não tem tempo nem pra botoá camisa, diabo do bembo.

Agora, à medida que o terreiro lentamente se enchia de escravos, alguns de pé, formando fila, e outros acocorados , esperando a reza, o senhor aparecia na varanda da casa-grande. "Um escravo recitava a reza que os outros repetiam", relembrava um antigo escravo. Todos tiravam o chapéu e ouvia-se um "Bendito-Seja-Nosso-Senhor-Je-sus-Cristo" ao qual alguns escravos respondiam um confuso "Nosso Senhor Jesus Cristo", outros um lacônico "Kist" Do senhor, na varanda, vinha a resposta: "Seja Ele Sempre Louvado". O feitor fazia a formatura; quando um escravo não respondia depois de dois chamados o feitor corria para a senzala à sua procura.

Quando as ordens do dia tinham sido dadas, distribuindo as várias turmas entre os diversos talhões, escravos e capatazes se dirigiam para a cozinha dos escravos para tomar café com angu.

Os primeiros clarões da aurora despontavam no céu quando os escravos se encaminhavam para o trabalho. Uns poucos iam para a casa de vivenda; a maioria punha a enxada no ombro, e, velhos e moços, homens e mulheres, dirigiam-se para o trabalho da carpa que varava o ano, seguidos pelos capatazes que vigiavam os mandriões. As mães carregavam as crianças de peito em pequenos jacas presos às costas, ou escarranchados sobre um quadril. As crianças de quatro a sete anos se arrastavam com as mães, as de nove a quinze anos seguiam ao lado. Se os talhões em que trabalhavam eram distantes da sede, levavam também a comida necessária para duas refeições - seja num veículo puxado por uma junta de bois, que os escravos denominavam maxambomba, seja em caldeirões de ferro ou em cestas de vime, balançando na ponta de um pau, ou em gamelas de madeira sobre tábuas que os escravos carregavam ao ombro. Alguns levavam alimentos suplementares em pequenos sacos de pano.

Disseminados pelo cafezal, havia abrigos constituídos de quatro postes com cobertura de sapé. Na aba do morro coberto de cafeeiros, que subiam em fileiras verticais, separavam-se os escravos em pequenas turmas. Velhos e velhas formavam uma turma que ficava ao lado do rancho; as mulheres formavam outra ; os homens e a rapaziada nova formavam uma terceira.

Deixando moleques e meninas brincando aos cuidados da cozinheira e de seus ajudantes no rancho, eles iniciavam o dia de trabalho. Quando o sol esquentava, os homens tiravam as camisas ; as enxadas subiam e caíam lentamente à medida que os escravos procediam na carpa morro acima. No sistema de capinação por turmas, chamado corte e beirada, os melhores trabalhadores eram colocados na beirada dos talhões, cortador e contra-cortador de um lado e o beirador e contra-beirador do outro. Esses quatro trabalhadores escolhidos entre os melhores davam o ritmo do trabalho, servindo de exemplo aos trabalhadores mais lentos que ficavam de permeio. Quando uma carreira de café terminava repentinamente numa depressão da encosta, o escravo gritava para o feitor "joga uma outra carreira no meio" ou "precisamos uma outra carreira" ; o feitor passava a informação para o chefe de turma na beirada do talhão e esse se deslocava para a carreira contígua, dando assim ao escravo uma nova carreira para carpir. Dessa maneira os cabeças de turmas se conservavam sempre na extremidade.

As diversas turmas freqüentemente trabalhavam a pequena distância umas das outras e, para imprimir ritmo às enxadas e transmitir comentários sobre o pequeno mundo em que se achavam circunscritos, no qual viviam e trabalhavam - suas próprias fraquezas, as do senhor, dos feitores e dos capatazes - o "mestre cantor" de uma turma iniciava o primeiro verso de um jongo. Sua turma repetia em coro o segundo verso, e carpiam todos no mesmo ritmo, enquanto o mestre cantor da turma ao lado tentava responder ao desafio. Um antigo escravo, ainda com fama de hábil cantor de jongo, informava que "o mestre batia no chão com a enxada, os outros escutavam enquanto ele cantava. Depois respondiam." Acrescentava que quando o jongo não ia bem o trabalho não rendia. Os jongos cantados em língua africana se chamavam quinzumba; os cantados em português, mais comuns à medida que desapareciam das turmas os negros velhos nascidos na África, chamavam-se visaria. Parando aqui e ali para dar uma lambada nos indolentes, dois capatazes fiscalizavam as turmas, percorrendo de um lado para outro as carreiras de café e gritando "vamos, vamos" ; quando a fiscalização relaxava, os trabalhadores se aproveitavam para diminuir o ritmo do trabalho enquanto escravos e escravas acendiam seus pitos ou se apoiavam à enxada para enxugar o suor. Para racionalizar o desejo de resistência às lambadas e aos gritos do capataz, inventaram a história de que um escravo mais velho e mais vagaroso nunca devia ser ultrapassado em sua carreira de café ; do contrário o escravo velho podia arremessar a cinta na carreira de um mais moço, e este seria mordido por uma cobra quando dela se aproximasse. O feitor ou o próprio senhor, vestido de branco e de botas, passeava a cavalo pelo cafezal para fiscalizar o trabalho. Os escravos atentos, fingindo que olhavam para o sol e disfarçando, diziam com afetação, "olha o sol quente vermelho", ou misturavam palavras africanas comuns, do vocabulário dos escravos, com palavras portuguesas como "Ngoma vem aí" para avisar os companheiros que fingiam trabalhar com afinco. Quando o capataz via o fazendeiro aproximar-se, comandava à turma "dêem a bênção", a que os escravos ansiosos por uma pequena folga atendiam, perfilando-se; ou, tirando os chapéus, se benziam, respondendo "vas Cristo." Encerrando a saudação ritual, o senhor também tirava o chapéu, dizia "louvado seja para sempre", e continuava. Imediatamente diminuía o ardor do trabalho.

Ao grito de "almoço, almoço" ou ao toque de uma buzina que vinha do rancho, lá pelas dez horas, os escravos parceiros e os capatazes desciam. À sombra do rancho, passavam em fila diante da cozinheira e de seus ajudantes, estendendo as suas cuias. Nas fazendas mais prósperas os escravos tinham, às vezes, pratos de estanho. Neles a comida era depositada ; os capatazes e um escravo favorito comiam de lado enquanto os outros se sentavam ou deitavam no chão. As mães aproveitavam o descanso para amamentar os filhos... Meia hora depois a turma voltava para o trabalho. A uma hora da tarde havia uma breve pausa para o café, ao qual os escravos freqüentemente acrescentavam o resto do angu servido ao almoço. Nos dias frios e chuvosos substituía-se o café por pequenas doses de caninha fabricada na própria fazenda. Alguns antigos escravos afirmavam que o fazendeiro freqüentemente mandava os capatazes distribuir-1hes cachaça enquanto trabalhavam, para que não interrompessem o trabalho. A janta era servida às quatro horas e o trabalho retomado até o cair da noite quando o capataz gritava "vamos largar o serviço"; As turmas de escravos voltavam então para a sede. Zaluar, o português romântico que visitou Vassouras, descreveu a volta do trabalho nos cafezais: "é a hora solene do crepúsculo. Ao longe os sinos da fazenda tocam a ave-maria. (Do alto dos morros cai a sombra da noite ao passo que as estrelas aparecem no céu... Do morro desce o capataz taciturno, e na frente os escravos, de volta para casa". Mais uma vez os escravos faziam a formatura no terreiro onde os trabalhadores da lavoura se reuniam aos companheiros que trabalhavam na sede.

Adaptado de: Stein, Stanley J. A grandeza e decadência do café, Editora Brasiliense, São Paulo 1983.

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