terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Império II



Entrevista: Boris Fausto/tvescola

Qual a importância da escravidão para a produção do café?
Uma frase muito comum no Império afirmava que o Brasil é o café e o café é o negro. A produção do café, que ganhou importância enorme por volta de 1830, dependia do trabalho escravo. Havia incentivo para produtores e exportadores, e o interesse pela bebida era crescente em alguns mercados consumidores, especialmente Estados Unidos e Europa. O Vale do Paraíba foi a primeira região em que a produção se expandiu: inicialmente no território da província do Rio de Janeiro, depois na província de São Paulo. Na última década do Império, o café representava 60% do total de exportações do Brasil. Isso ocorreu enquanto o açúcar, produto muito importante no Brasil Colônia, entrava em crise. Os velhos engenhos foram desaparecendo, o açúcar brasileiro começou a sofrer cada vez mais a concorrência do que era produzido nas possessões francesas das Antilhas e em outras partes do globo; além disso, na Europa, cada vez mais se utilizava açúcar extraído da beterraba.

Por que a produção do café se deslocou?
O percurso da economia do café variou, ao longo do século 19. Iniciou-se no Vale do Paraíba e foi se deslocando para a região paulista de Campinas, depois cada vez mais para o oeste da província. O espaço geográfico da produção do Vale do Paraíba era limitado; o solo, que já não era de boa qualidade, começou a sofrer o processo de erosão, pois na época não havia técnicas de conservação do solo, nem preocupação com isso. Pessoas que tinham acumulado fortuna em atividades urbanas, na província de São Paulo, começaram a plantar em uma nova região, no Oeste paulista. Ali havia um espaço muito maior para se plantar e a terra era de qualidade superior, a chamada terra vermelha, que os imigrantes italianos chamaram de terra rossa (“terra vermelha”, em italiano, mas que ficou por isso conhecida como terra roxa). Conscientes do momento histórico que estavam vivendo, os cafeicultores do Oeste paulista se deram conta de que não seria possível contar eternamente com a escravatura e começaram a substituir a mão-de-obra escrava pela dos imigrantes. Os cafeicultores do Vale do Paraíba, os velhos barões do café, não conseguiram se adaptar aos novos tempos e acabaram se arruinando com o fim do sistema escravista.

Qual o papel do trabalho escravo na sociedade brasileira?
A sociedade brasileira sempre foi muito estratificada. Existiam no alto as elites, abaixo delas uma classe média urbana que progressivamente ganhava força e, mais abaixo, os brancos pobres. Na base, ficavam os escravos, considerados como “coisas”, e também os negros libertos. A penetração da escravidão na sociedade brasileira foi profunda por várias razões. O comércio de escravos era um grande negócio; mesmo antes da vinda de Dom João VI, muitas das fortunas acumuladas no Rio de Janeiro se originavam do tráfico de escravos. Na Colônia, o trabalho manual era muito desvalorizado, e assim se recorria aos escravos não só para trabalhar, por exemplo, nas grandes fazendas de açúcar, mas também em todo tipo de tarefa doméstica. Todo mundo sonhava em ter alguém que trabalhasse para si, e isso se refere tanto ao senhor de engenho quanto ao pequeno personagem de classe média.

Quando a escravidão começou a ser discutida?
Esse quadro começou a sofrer abalos quando, na esfera internacional, o sistema escravista entrou em crise – sobretudo porque, com a industrialização da Inglaterra, o comércio de escravos deixou de interessar aos ingleses. Eles procuraram criar um mercado internacional de mão-de-obra livre, muito pobre e muito explorada. Começaram a combater a escravidão em todo o mundo e a apreender os navios negreiros, sobretudo no Atlântico, contrariando os interesses da elite brasileira que vivia da escravidão. Diante da pressão inglesa, as elites brasileiras não tomavam decisões, pensando mais ou menos assim: “vamos ter de acabar com a escravidão, mas quanto mais demorar, melhor”. Um bom exemplo disso: por pressão inglesa, o tráfico de escravos foi extinto, por uma lei de 1831, mas essa lei não foi cumprida, era uma lei “para inglês ver”.

Como ocorreu afinal a abolição?
Quase vinte anos depois, em 1850, o Brasil foi levado a extinguir de verdade o tráfico internacional. O governo imperial tomou medidas duras, prendeu gente importante, e o tráfico externo se extinguiu. Mas surgiu o tráfico interno, com a venda de escravos das áreas mais pobres para as que estavam se desenvolvendo. De qualquer maneira, a partir dessa época ficou claro que era preciso pôr fim a esse regime. Dom Pedro, assim como alguns setores da elite, se empenharam em aprovar leis que fossem reduzindo o alcance da escravidão – houve a Lei do Ventre Livre, que libertava o filho de mãe escrava, depois a Lei do Sexagenário, que libertava os velhos acima de 60 anos, até se colocar a questão da abolição. Houve um movimento abolicionista branco significativo, com a presença de destacados nomes da elite brasileira, como Joaquim Nabuco. Ocorreram também insurreições de escravos em fazendas de São Paulo.

Como a sociedade acolheu os ex-escravos?
A abolição da escravatura se deu ainda no reinado de Dom Pedro II, em 1888, pela mão da princesa Isabel, que estava transitoriamente com as funções de regente. Representou um avanço, mas deixou também muitos problemas, porque não levou em conta a inclusão do negro, como cidadão, na sociedade brasileira. Os grandes fazendeiros de café optaram pelo imigrante europeu, e o negro perdeu seu lugar nas propriedades do Centro-Sul do país. Nem ao menos se cuidou de conceder-lhe terras, o negro ficou relegado às atividades marginais, em situações de subemprego, vítima de um pesado preconceito e sem a oportunidade de acesso à escola. Nesse processo, o preconceito contra o negro persiste até hoje.

Houve progressos no final do Império?
No período que vai de 1850 até o fim da monarquia o Brasil passou por um processo de modernização. Várias coisas foram feitas no sentido de obter uma integração maior do país, do ponto de vista financeiro e das comunicações. A integração financeira se fez principalmente por meio do grande avanço do sistema bancário. A integração espacial, geográfica, foi marcada pela introdução de um meio de transporte que representava uma revolução, a estrada de ferro. No Nordeste, a expansão da rede ferroviária esteve ligada a uma empresa inglesa, a Great Western, que interligou várias partes de Pernambuco e da Bahia. Mas o coração da expansão ferroviária durante o Império se situou em São Paulo e Rio de Janeiro, pois o café precisava chegar aos portos para ser exportado.

Como as ferrovias contribuíram para o comércio do café?
Há dois exemplos dessa expansão ferroviária ligada ao café. Um é a Estrada de Ferro Dom Pedro II, hoje Central do Brasil, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. Era muito importante para os fazendeiros do Vale do Paraíba, que exportavam o café pelo porto do Rio de Janeiro – que na época foi bem melhorado, para permitir a entrada de navios de grande calado. Outro exemplo foi a São Paulo Railway (SPR), também um investimento inglês, que em uma grande façanha de engenharia ligou São Paulo a Santos pela Serra do Mar, a partir de 1867. Com isso surgia uma via muito mais eficiente e rápida para transportar o café, trazendo o progresso não só para o porto de Santos mas também para toda a região produtora de café do interior paulista e, sobretudo, para a cidade de São Paulo.

O que acontecia então na política externa?
Durante o século 19, a política externa brasileira gerou confrontos com seus vizinhos. Era uma época de formação dos Estados nacionais; Brasil, Argentina e Uruguai estavam em processo de consolidação como nação. A política de afirmação dos Estados nacionais acabou gerando um conflito de enormes proporções, a Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, porque três países se aliaram contra o Paraguai: Brasil, Argentina e Uruguai. O conflito durou quase seis anos: começou com o incidente com um navio brasileiro, o Marquês de Olinda, no rio Paraguai, em 1864, e durou até 1870. O Paraguai foi arrasado, houve milhares de mortos brasileiros, argentinos e uruguaios, e não só nas batalhas. Epidemias como o cólera e a varíola mataram tanto ou mais gente do que os próprios combates. Muitas vezes se diz que a Inglaterra provocou a Guerra do Paraguai. Isso não é certo. Os ingleses dominavam economicamente os países da América do Sul, mas tinham interesse na estabilidade, e não em um grande conflito. A guerra foi provocada principalmente pelas rivalidades geopolíticas entre os países envolvidos.

Que conseqüências essa guerra trouxe para o Brasil?
Para os que viveram no final do século 19, a Guerra do Paraguai foi um marco: era como se houvesse um Brasil antes da guerra e outro depois dela. Por um lado, a sociedade ganhou certa consciência de que a escravidão era um problema grave; muitos escravos participaram da luta, alguns porque quiseram, outros porque foram obrigados. E assim se tornou evidente a contradição entre o soldado negro, a serviço da pátria, e o escravo negro. Por outro lado, a Guerra do Paraguai fortaleceu o Exército brasileiro, que ganhou prestígio ao vencer a guerra. No início, as tropas eram formadas principalmente por despreparados componentes da Guarda Nacional, cuja atuação foi um fracasso; mas com a entrada do Exército projetaram-se figuras como Osório e, sobretudo, Caxias, que iria se tornar patrono do Exército. A consciência do valor do militar se formou durante o conflito, por seu papel contrastante com algumas elites civis, em especial do Rio de Janeiro. Enquanto os militares iam para o campo de batalha, setores da elite civil enriqueciam com o fornecimento de alimentos e de material para a campanha.

Que fatores contribuíram para o fim do Império?
Entre os fatores que concorreram para a crise do Império e a derrubada de Dom Pedro II, em 1889, sobressai o fim da escravidão. Os grandes proprietários de escravos, muito fiéis ao Império, acabaram se decepcionando com a monarquia, embora não fossem muito fortes por ocasião da abolição, nem quisessem a República. Há outro fator de desgaste, que também foi decisivo para o fim do Império: as desavenças entre a monarquia e a Igreja. Nos últimos anos do reinado de Dom Pedro II, ocorreu um choque sério entre a Igreja e o Estado. Um movimento de renovação da Igreja Católica, comandado pelo Vaticano, em todas as partes do mundo, buscava dar mais autonomia ao clero em suas relações com o Estado. Isso se chocava com o velho sistema do padroado, adotado no Brasil, no qual o imperador controlava o clero. Mas talvez o fator mais importante na queda da monarquia tenha sido a pressão de grupos da elite civil pela autonomia das províncias, aliada à pressão por um novo regime, por parte do Exército.

Entrevista com Boris Fausto: Disponível em http://mecsrv04.mec.gov.br/seed/tvescola/historia/entrevista_1a.asp, acesso em 13 jan 2009.

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